O trading no Brasil e a percepção do brasileiro com o day trade na bolsa de valores

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Ser um trader na bolsa de valores começou a se tornar algo dito como popular no Brasil há pouco tempo. A ideia de ter uma profissão ou ocupação diária onde o esforço é definido pela concentração, capacidade analítica e disciplina é algo extremamente sedutor. Principalmente quando isso está atrelado à ganhos improváveis diante da realidade de boa parte dos brasileiros.

Além disso, a possibilidade de trabalhar em casa, “sem chefe” e em uma rotina totalmente “livre”. Em que você é o responsável por determinar quando e onde vai trabalhar. Também é algo que está na escala de sonho ou meta, de boa parcela do nosso povo brasileiro. E isso não é nem considerando toda a população em si, mas apenas a parte dela que já tem determinada formação educacional e renda per capita dentro de uma média ponderada, se é que isso pode ser feito de alguma forma “justa”, pois a variação média de rendimentos já tem enorme variação conforme o estado da federação.

Acho importante ressaltar isso, em janeiro de 2021, de acordo com FGV Social, a partir de dados das Pesquisas Nacionais por Amostra de Domicílios (Pnads), temos hoje no Brasil, quase 27 milhões de pessoas na linha da pobreza extrema. É uma quantidade de pessoas maior que a população da Austrália. Essa parte da população tem como sonho ou meta, apenas a certeza de que vai se alimentar todos os dias do ano.

Mas o que isso tem a ver com trade e bolsa de valores?

É importante analisar este cenário porque é nele que a pessoa que hoje “faz trade” de forma autônoma está. Com base nisso, você já percebeu que este texto não é dirigido à analistas, operadores e traders de fundos de investimento, tesourarias etc. Mas sim ao brasileiro que nos últimos anos descobriu como atuar na bolsa de valores e hoje está inserido nesse contexto de confirmação de viabilidade da atuação, muitas vezes perdido em labirintos de técnicas de análise e seguindo orientação que muitas vezes são conflitantes entre um “especialista” ou outro.

Viver de Bolsa de Valores e viver de trade no Brasil

Este título “viver de trade” ficou errado e bem genérico, pois o correto deveria ser: viver de day trade. Porque essa modalidade é o hoje o grande “Ás” da mesa. Mercado financeiro é coisa, bolsa de valores é outra. Investimento é uma coisa e trading é outra. Acontece que no Brasil, aparentemente tudo se tornou a mesma coisa e por ser algo que foge da nossa cultura, uma interpretação nova está sendo criada a “trancos e barrancos”.

E essa “interpretação” é a do trading na bolsa de valores como algo simples, fácil, rápido e que dá a você tudo que quer, como dinheiro, tempo livre e digamos que uma vida plena. Em outras palavras, o objetivo que o trabalhador acredita estar no topo da carreira que está trilhando na sua área de atuação ou que busca trilhar.

O trading ou fazer trade na bolsa de valores dá dinheiro?

Ele pode dar lucro e consequentemente dinheiro. Mas também pode dar prejuízo. E isso é algo que boa parte da população que tem como cultura a atuação em trabalhos com remuneração fixa e investimentos mais voltados também para a “segurança fixa”, não entende de forma prática.

Você é um dentista. Acorda cedo e vai para seu consultório. Se tiver algum paciente, você o atende e recebe por isso. Se não tiver, você volta para casa e amanhã é um novo dia. Faz investimentos em propaganda para atrair mais clientes, controla o capital de giro para ter as contas em dia e manter o seu negócio.

Você entende que apesar de ter uma formação e investir capital nesse negócio, ele pode não dar certo. Se pacientes não aparecem e serviços não forem prestados, não haverá entrada de capital e o negócio “consultório do dentista” acabará. Faz algum sentido o contrário acontecer? Muitos e muitos clientes aparecem, você fica completamente sem tempo porque está trabalhando a cada minuto. Mas mesmo assim, acontece de você perder dinheiro e ter que fechar o consultório?

E isso não por má administração do negócio em si, mas simplesmente porque a cada atendimento que faz, ao invés de receber, você dá dinheiro para o paciente. Isso tem alguma lógica para você? Provavelmente não.

Utilize o exemplo acima e fica a vontade para replicar em qualquer outra atuação, como a de pintor, jardineiro, auxiliar administrativo, médico, engenheiro etc. Pela lógica, se você trabalha para alguém, seja lhe prestando um serviço ou lhe vendendo um produto, o objetivo é sempre o lucro, ou seja, “ganhar dinheiro”. Qualquer coisa que diga o contrário não faz sentido em um país onde a moeda de troca é o capital, o dinheiro.

Mas é exatamente isso que pode acontecer no trading. Você acorda cedo, passa o dia todo trabalhando para no fim, terminar o dia com prejuízo, perdendo dinheiro. E isso acontece com a grande maioria das pessoas, principalmente das que fazem day trade. Isso já foi motivo de várias pesquisas e isso não é exclusividade do brasileiro, como falamos neste post aqui (clique para ver).

Levando em consideração as últimas pesquisas feitas no Brasil, em torno de 95% das pessoas que fazem day trade na B3 (Bolsa do Brasil), não tem continuidade e ao final terminam com prejuízo. Até aí nenhuma novidade. E por mais que a forma com que a pesquisa foi conduzida, amostragem etc., possam em teoria levantar algumas questões em que o resultado alteraria bem essas porcentagens do resultado, o fato é: A maior parte dos brasileiros que tentam atuar como day traders, desiste, perde dinheiro e não continuam. Ou seja, não dão certo nessa atuação.

Isso significa que é impossível ganhar dinheiro com trading ou day trade?

Não. Só significa que a “margem de corte” é extremamente alta e mais agressiva em relação ao tempo do que em outras atividades. Vários fatores, como a própria liberdade que a pessoa tem são determinantes na definição dessa margem de corte. Mas, como estamos falando de continuidade, quantas empresas fecham no primeiro ano? Quantas pessoas tentam ser pilotos da FAB e não conseguem? Quantas pessoas, mesmo em suas áreas de formação, desistem e mudam de área? Todos esses que não deram certo, em todas essas áreas também perderam dinheiro, tempo e outras oportunidades.

O que torna tão absurda essa informação de que a grande maioria das pessoas que fazem day trade perdem dinheiro? É a percepção de que se a pessoa “trabalha com bolsa de valores” é porque ganha mais dinheiro do que qualquer outro? Ou é porque ver o lucro crescendo na tela traz a mente a velha “conta de padaria” que todo leigo faz:

“Se eu fizer isso todo dia, durante os 30 dias do mês, terei x de dinheiro. E fazendo isso 12 meses por ano estou rico!”

Na internet vejo muito as pessoas falarem que o motivo para tanta gente ter criado essa percepção errada sobre o trading, veio das propagandas de pessoas vendendo cursos, corretoras vendendo facilidades demais, influenciadores digitais financiados por terceiros interessados etc. Ou seja, alguns dizem que foram influenciados a atuar no trading com base em algo que não condizia com a verdade.

Eu, particularmente concordo com isso. Mas concordo apenas na questão de que o mercado pode ter sido apresentado a pessoa, de uma forma lúdica, um verdadeiro mundo cor de rosas. E minha concordância vai apenas até aí. Porque a todo momento estamos lidando com adultos e não com crianças ingênuas que são influenciáveis por propagandas.

Seria mais justo a pessoa admitir que quando descobriu uma nova oportunidade, ficou gananciosa ao ponto de não analisar friamente a proposta, ponderando riscos, possibilidades e calculando o custo de oportunidade. Simplesmente ignorou tudo e foi de cabeça. Geralmente o mesmo comportamento que tem na hora de fazer trading.

Cenário geral do interessado em ser trader autônomo no Brasil

Perceba que minha intenção aqui não é tomar partido de nenhum lado ou ninguém. Seja da pessoa física que ganha dinheiro, ou da que perde. Do professor, coach, instrutor, mentor ou do aluno. Da corretora independente, do banco ou do cliente. Vamos apenas analisar os pontos que são:

  • Atuação em algo que pode ser altamente rentável e que aparentemente tem todas as vantagens que o trabalhador brasileiro busca;
  • Viabilidade de tempo e de capacidade para aprender. Percepção de simplicidade;
  • Viabilidade financeira de atuar, devido o baixo custo. Ou seja, a primeira vista é totalmente acessível;
  • Euforia do vislumbre da descoberta. Achar que encontrou um “oásis no deserto que só você conhece”;
  • População que convive de perto com a pobreza e políticas econômicas que tendem a pesar mais sobre as classes com menos recursos.

Some todos esses fatores e temos geralmente:

Uma pessoa que acredita que ganha pouco dinheiro para o tanto que trabalha ou produz. Seja ela funcionária em alguma empresa ou do próprio empresário.

A pessoa está errada em querer mudar sua estrutura financeira ou profissional? Lógico que não. Essa não é a questão, pois o que deveria ser levado em consideração aqui é a forma que a pessoa lida a partir do momento que conhece essa “oportunidade”. Como ela faz a análise do custo de oportunidade, estuda todos os detalhes da atuação, monta o planejamento, faz uma simulação de cenários, testa, valida, corrige e executa.

Quando o assunto é trading na Bolsa, normalmente a pessoa passa por todo esse processo de análise de viabilidade e execução do negócio? Geralmente, podemos considerar que não. Na prática, o que geralmente acontece é:

Depois que descobriu o botão de comprar/vender e que existe “suporte e resistência” em um gráfico, já coloca dinheiro porque um minuto perdido é dinheiro perdido.

Em algum momento do todo esse caminho que a pessoa segue, que vai desde o conhecimento até a atuação prática, nesse caso, o trading deixa de ser uma das atuações mais difíceis do mundo para ser algo simplório como “compre em uma linha imaginária” ou “venda porque o player quer jogar o preço para baixo”, baseando-se unicamente pelas ordens enviadas por ele naquele momento, que podem ser de fato, por qualquer motivo possível.

Este texto não representa um estudo com dados amplamente amparados por pesquisas. Apenas a percepção de quem atua no mercado como trader e que também inserido nesse cenário, em contato com quem está conhecendo o mercado agora e também de quem já atua no mesmo. O objetivo aqui não é fazer juízo de valor, mas sim trazer essa percepção do cenário, para que quem é brasileiro tenha interesse em fazer trading e até mesmo quem já esteja fazendo, tenha também essa percepção para análise da sua situação individual.

Guilherme Almeida / Trader e Professor

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